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Anderson de Moura Lima
Universidade Estadual do Piauí
Campus Drª. Josefina Demes – Floriano

O Behaviorismo Radical é uma filosofia da ciência, mais especificamente, uma filosofia de uma ciência do comportamento. Essa ciência do comportamento se chama Análise do Comportamento.
A palavra “behaviorismo” é um neologismo criado pelos psicólogos brasileiros e na verdade significa comportamentalismo. O neologismo é um fenômeno lingüístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de novo sentido a uma antiga.
Comportamentalismo é o termo usado na Psicologia que designa qualquer escola, ou abordagem, que tenha como objeto de estudo o comportamento visto sob uma ótica empírica.
Já “radical” é uma palavra introduzida por Burrhus Frederic Skinner - quando formulou as bases do Behaviorismo Radical para fazer oposição ao Behaviorismo Metodológico de John Broadus Watson - e significa que essa filosofia da ciência nega que os eventos mentais causam o comportamento humano e que aqueles tenham uma natureza diferente destes. Assim nega a existência de todos os eventos que não tenham uma explicação natural e aceita, obviamente, todos os eventos que tenham essa propriedade.
Muitos são os preconceitos em reação ao Behaviorismo Radical devido ao fato de relacionarem o Behaviorismo Radical com o Behaviorismo Metodológico apesar de serem duas propostas de estudo do comportamento muito distintas. Skinner (1974) elencou esses preconceitos presentes no Ocidente em uma de suas obras:

1. O Behaviorismo ignora a consciência, os sentimentos e os estados mentais.
2. Negligencia os dons inatos e argumenta que todo comportamento é adquirido durante a vida do indivíduo.
3. Apresenta o comportamento simplesmente como um conjunto de respostas a estímulos, descrevendo a pessoa como um autômato, um robô, um fantoche ou uma máquina.
4. Não tenta explicar os processos cognitivos.
5. Não considera as intenções ou os propósitos.
6. Não consegue explicar as realizações criativas -- na Arte, por exemplo, ou na Música, na Literatura, na Ciência ou na Matemática.
7. Não atribui qualquer papel ao eu ou à consciência do eu.
8. É necessariamente superficial e não consegue lidar com as profundezas da mente ou da personalidade.
9. Limita-se à previsão e ao controle do comportamento e não apreende o ser, ou a natureza essencial do homem.
10. Trabalha com animais, particularmente com ratos brancos, mas não com pessoas, e sua visão do comportamento humano atém-se, por isso, àqueles traços que os seres humanos e os animais têm em comum.
11. Seus resultados, obtidos nas condições controladas de um laboratório, não podem ser reproduzidos na vida diária, e aquilo que ele tem a dizer acerca do comportamento humano no mundo mais amplo torna-se, por isso, uma metaciência não-comprovada.
12. Ele é supersimplista e ingênuo e seus fatos são ou triviais ou já bem conhecidos.
13. Cultua os métodos da Ciência, mas não é científico; limita-se a emular as Ciências.
14. Suas realizações tecnológicas poderiam ter sido obtidas pelo uso do senso comum.
15. Se suas alegações são válidas, devem aplicar-se ao próprio cientista behaviorista e, assim sendo, este diz apenas aquilo que foi condicionado a dizer e que não pode ser verdadeiro.
16. Desumaniza o homem; é redutor e destrói o homem enquanto homem.
17. Só se interessa pelos princípios gerais e por isso negligencia a unicidade do individual.
18. É necessariamente antidemocrático porque a relação entre o experimentador e o sujeito é de manipulação e seus resultados podem, por essa razão, ser usados pelos ditadores e não pelos homens de boa vontade.
19. Encara as idéias abstratas, tais como moralidade ou justiça, como ficções.
20. É indiferente ao calor e à riqueza da vida humana, e é incompatível com a criação e o gozo da arte, da música, da literatura e com o amor ao próximo.

 Um dos grandes motivos da existência e propagação dos preconceitos em relação ao Behaviorismo Radical é o fato dele afirmar que todo comportamento se origina da interação entre fatores genéticos e ambientais. Nada mais que isso. A maior parte das pessoas acredita firmemente na existência do livre-arbítrio, ou seja, da capacidade que elas têm de se comportar independentemente da herança genética e/ou do ambiente, porém a crença no livre-arbítrio impede a existência de uma ciência natural do comportamento, pois toda ciência natural é determinista, logo todo evento natural provém de outro evento natural. O livre-arbítrio não é um fenômeno que têm propriedades naturais e logo não pode ser explicado por uma ciência natural.
O Behaviorismo Radical se baseia no pragmatismo. O pragmatismo é uma tradição filosófica que se concentra na tarefa de compreender as experiências humanas sem afirmar que existe verdade absoluta, pois “a verdade de um conceito reside na sua capacidade de organizar parcelas de nossas experiências, organizá-las e compreendê-las” (BAUM 2006).
Em resumo podemos dizer que os behavioristas radicais concordam, em geral, com algumas idéias básicas:

  1. Causas mentais do comportamento são uma ficção, pois as reais causas do comportamento têm origem na herança genética e no ambiente;
  2. Os eventos que acontecem em baixo da pele, ou seja, dentro de nós como os sentimentos e pensamentos, têm as mesmas propriedades dos eventos de fora como a fala e a ação. A diferença é que os primeiros eventos são geralmente observados pela pessoa que os sente já os outros podem ser observados por mais de uma pessoa.

A história do Behaviorismo começa com o surgimento de dois paradigmas dentro da Psicologia, a Psicologia Objetiva e a Comparativa.
A introspecção foi um dos primeiros métodos utilizados para pesquisar os fenômenos mentais e comportamentais da nascente área do conhecimento, a Psicologia. Esse método se baseava na verbalização do que uma pessoa pensava ou sentia após estímulos ambientais planejados nas experiências dos primeiros Psicólogos como Wilhelm Wundt.
Já a Psicologia Comparativa resultou da influência da Teoria da Evolução de Darwin e da noção de continuidade das espécies que trazia a idéia de que as espécies tinham semelhanças anatômicas, morfológicas e funcionais em decorrência do compartilhamento da mesma história evolutiva.
Em 1913 é fundada a primeira categoria do Behaviorismo, o Behaviorismo Metodológico que foi uma reação á psicologia da consciência e á psicologia comparativa.
Watson sabiamente acreditava que a Psicologia utilizava muitos termos vagos, imprecisos e dizia que a Psicologia deveria ter o comportamento como objeto de estudos e não a consciência, aliás, o Psicólogo deveria estudar todo e qualquer tipo de comportamento observável mesmo ele sendo não-humano e deveria compreender o comportamento de todas as espécies através de princípios e leis fundamentais.
Porém o Behaviorismo de Watson não levava em consideração o que não era passível de observação pública como os sentimentos, sensações e pensamentos e o Behaviorismo de Skinner já os levava afirmando que os mesmo eram simplesmente comportamentos privados - observáveis, mas somente pelo próprio indivíduo.
Essa é a principal diferença entre esses tipos de Behaviorismos.
O Behaviorismo Radical surgiu como uma proposta alternativa á de Watson afirmando também que o comportamento não era somente fator dos estímulos que o antecediam, mas era influenciado pelos estímulos conseqüentes ao comportamento, ou seja, aqueles provocados por ele mesmo.
Tão importante como o fato do comportamento ser resultado dos estímulos antecedentes e conseqüentes, de acordo com Skinner, era o fato dele não ser mediado por nenhuma estrutura orgânica. Na verdade um determinado comportamento deveria ser entendido como um resultado provável de uma série de fatores imediatos e históricos tanto morfológicos, anatômicos e funcionais.
O Behaviorismo Radical também pode ser chamado de metafísica da Análise do Comportamento. Metafísica é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo. A saber, é o estudo do ser ou da realidade, assim, a metafísica behaviorista radical também estuda a experiência humana a partir das descobertas proporcionadas pela Análise Experimental do Comportamento.
O Behaviorismo Radical é a parte da Análise do Comportamento que estuda os conceitos vistos acima: ciência, ciência natural, evento natural, ambiente, estímulo, resposta e comportamento.
A Psicologia Moderna é uma área do conhecimento que em 2009 fará 130 anos. Fundada em 1879 quando o alemão Wilhelm Wundt criou o primeiro instituto de psicologia experimental dotado de laboratórios na Universidade de Leipzig em seu país é uma área muito ampla que possui diversas escolas de pensamento, áreas de pesquisa e que pode se aplicada em diversos contextos. Muitos leigos, estudantes e até mesmo profissionais de Psicologia em decorrência dessa amplitude confundem os conceitos de Psicologia Comportamental e Análise do Comportamento. A maioria acredita se tratarem da mesma coisa.
Baum (2006) a firma que

“Muitos behavioristas acrescentam que a ciência do comportamento [Análise do Comportamento] deve ser a psicologia. Esse não é um ponto pacífico por que muitos psicólogos rejeitam de todo a idéia de que a psicologia seja uma ciência, e outros que a vêem como ciência consideram que o seu objeto é alguma outra coisa que não o comportamento. (...) O debate ainda continua , a análise do comportamento é parte da psicologia, se é o mesmo que psicologia, ou se é independente da psicologia”.

 

A Análise do Comportamento é uma área definida do conhecimento humano enquanto o termo “Psicologia Comportamental” é uma palavra genérica que não diz muita coisa. No máximo podemos dizer que a Análise do Comportamento está inclusa dentro da Psicologia Comportamental não significando, portanto que são a mesma área.
Starling (2003), uma dos maiores Analistas do Comportamento do Brasil, afirma que

“‘Psicologia Comportamental’ é uma denominação excessivamente genérica. De uma maneira imprópria, esta denominação pode englobar visões de mundo, pressupostos e conjuntos tecnológicos muito diferentes, muitas vezes incompatíveis entre si, tais como, por exemplo, o behaviorismo primitivo tal como formulado por Watson em 1913 e conhecido como Behaviorismo S-R, o behaviorismo mentalista de Hull e o behaviorismo mediacional de Tolman, a análise do comportamento de inspiração skinneriana, o neobehaviorismo metodológico que encontra sua expressão mais madura nos cognitivismos contemporâneos, o conjunto eclético e empirista das chamadas ‘comportamentais-cognitivas’ e ainda outras práticas que eventualmente usam o adjetivo ‘comportamental’ para qualificar, muitas vezes inapropriadamente, o seu substantivo. Assim, embora de uso comum por profissionais estranhos à área, a denominação ‘psicologia comportamental’ simplesmente não faz sentido e não se pode saber o que se deve entender por ela”.

Com respeito á Análise do Comportamento Starling (2003) afirma que “a Ciência do Comportamento [Análise do Comportamento]constitui um campo disciplinar por direito próprio, uma ciência natural, com afinidades epistemológicas, conceituais e metodológicas com a física, a química e a biologia contemporâneas”.
Se levarmos em consideração essas colocações perceberemos que é um erro teórico confundir Psicologia Cognitiva - Comportamental ou Comportamental - Cognitiva com Análise do Comportamento.
No máximo podemos dizer que a Psicologia Cognitva-Comportamental é um tipo de Psicologia Cognitiva que se utiliza intensivamente de tecnologia criada pela Análise do Comportamento, mas que apesar disso continua sendo um tipo de Psicologia Cognitiva, pois não é embasada pelo Behaviorismo Radical - a filosofia de ciência que embasa a Análise do Comportamento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUM, William. M. Compreender o behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. Tradução de Maria Teresa Araújo Silva [et al.] 2. ed. revista e ampliada. Porto Alegre: Artmed, 2006.

STARLING, Roosevelt Riston. O que é "psicologia comportamental"? Entrevista dada ao Centro Acadêmico de Psicologia da Universidade Federal de São João Del Rey em 2003.

SKINNER, Burrhus Frederic. Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix, 1974.